-with no turning back-
08
Ago 11

Ida Wulff

Acordei com o sol a espreitar pela janela do quarto. Os pássaros cantarolavam, os grilos cantarolavam, e não, apesar de o barulho que fazem por vezes se tornar irritante, desta vez não me incomodou mininmamente. Talvez porque estava feliz, o meu pai tinha um bom emprego, sim mesmo um bom emprego algures no meio de uma conversa com ele, ele disse-me que iria receber 1500€ por mês, estava tudo a correr bem, por isso para aproveitar aquela manhã solarenga de Setembro, provavelmente um das últimas assim tão agradáveis que ia viver antes da chegada do outono. Desta vez não me apetecia fazer o meu ''ritual'' habitual que fazia todas as manhãs por isso fui até à casa de banho, abri a torneira e deixei a água correr-me pelos dedos, enquanto ainda estava a acordar e a bocejar, voltando assim à realidade uni as minhas mãos e formando uma concha enchi-as de água, levei as mãos à cara, e sim, agora já estava acordada, sem restos de lápis espalhados e esborratados pelos olhos. Desci as escadas e fui logo em direcção ao frigorífico, na sua porta estava um papel afixado com um iman redondo amarelo e sorridente. ''Fui à mercearia, volto por volta do meio dia, avó.''  Como tudo era diferente e genuíno em Lisboa cada um por si, e com sorte recebia uma mensagem escrita por telemóvel a dizer ''Fui ao shopping''. Abri a porta do figorífico e senti um arrepio, do frio que vinha do mesmo, podera, estava só com uma camisa branca grande e com uns calções pretos de algodão juntinhos, e estava descalça, óbvio que resultou num espirro, ainda assim continuei o meu percurso para aquela manhã e estendi a mão até ao leite. Retirei-o e coloquei-o em cima da mesa redonda da cozinha, tirei uma caneca simples, branca que dizia ''drink me'' e coloquei o leite lá dentro, sem açucar ou cacau, só leite. Fui até ao quintal e sentei-me no banco de pedra e fiquei a apreciar a paisagem, as flores com cores vivas e ar saúdavel, as formigas que nadavam pela água que escorria pela inclinação de cimento que leva até ao portão lá de baixo, era claro que a minha avó tinha andado a regar. E o meu pai, onde andava ele? Deve ter ido ao largo tratar de assuntos pessoais ou algo do género, uma das coisas que admiro no meu pai, é muito independente nesse tipo de coisas, vai a todo o lado sozinho, desenrasca-se sozinho, se precisar de alguma coisa ele é que a vai buscar. Força de vontade ao fim ao cabo. Uma borboleta poisara sobre o meu pé esquerdo, uma borboleta branca muito bonita, estava a fazer-me cócegas por isso abanei ligeiramente o pé e ela voou até á laranjeira, onde a deixei de ver. Via uma cabeça ao fundo do ''carreirinho'' não é de terra, eu é que lhe chamo carreirinho porque não consigo achar um nome exacto para aquele ''corredor'' de alcatrão que percorre toda a vedação da escola do lado esquerdo, e os muros de quintais do lado direito, olhando com mais atenção essa pessoa já estava mais perto, mas trazia uma rapariga consigo, parecia ser o Alex e a Marta e por isso levantei-me e desci até ao portão, eles estavam quase a chegar, por isso dei um último golo no meu leite, e poisei a caneca no chão. Abri o portão e abracei o Alex, beijámo-nos e de seguida abracei a Marta e dei-lhe doi beijos no rosto.

No meio de muitos sorrisos inesperados:

-Olá meninos! O que andam aqui a fazer?

-Viemos de propósito ter contigo, o pessoal da nossa turma e outras pessoas lá da escola combinaram uma festa para hoje à noite. Queres vir? -perguntou a Marta.

-Ah...sim! Quero dizer... não sei... é o quê e onde?

-Ok, vais achar um pouco estranho mas todos os anos fazemos uma festa a seguir à primeira semana de aulas para nos despedirmos das férias. Este ano é no parque ecológico do gameiro. -respondeu ela.

-Isso é onde e o quê?

-É aqui perto não te preocupes, 10 minutos de carro, é para os lados do fluviário, é um parque enorme, permitido para acampamentos, e descendo, o que faz a margem de todo o parque é a água, uma ribeirinha, banhada pela Ribeira do Raia. Ah e não leves roupa que estimes muito porque a noite vai ser...um pouquinho diferente.- disse a Marta entusiasmada, e com um brilhinho nos olhos.

-Então?

-Logo vez.-respondeu o Alex, piscando-me o olho.

-Hum, agora estou curiosa!

-Ainda bem, vais adorar. A festa começa às 22h.

-Hum ok. Querem entrar? -reparei que ainda estava de pijama por assim dizer, porque uma camisa e calções não é propriamente pijama.

Eles olharam um para o outro e sorriram.

-Claro.-responderam os dois.

Subimos, eu empurrei a porta e entrámos.

-Querem ir até ao meu quarto?

-Bora.-respondeu o Alex.

-Hum hum.-disse a Marta.

Já no meu quarto.

-Uau Emms, o teu quarto é tão fixe! -disse a Marta olhando para todos os cantos, para todos os objectos, para tudo!

-O meu pai ajudou-me a decorá-lo.

-Fizeram um óptimo trabalho!-disse ela, olhando agora para mim.

-Obrigada, bem sentem-se por aí...

Sentaram-se os dois na cama e eu também o fiz.

-Bem o que querem fazer?

-Não sei... que tal irmos ao computador? -disse Alex.

-Ok.

Fui buscá-lo e sentei-me novamente na cama, deslizei para traz e cruzei as pernas ''à chinesa'' e coloquei o portátil à frente das pernas.

Assim que este ligou, fui directa ao youtube.

-Que música vamos ouvir?

Deu-se uma pausa.

-Red hot chili peppers! -dissemos  os três ao mesmo tempo e começámos a rir desalmadamente.

-Que engraçado! Até parece que somos irmãos ou coisa parecida. -disse a Marta ainda no meio de umas gargalhas, e colocando a mão à volta da barriga, e uma lágrima caía pelo seu rosto.

-Marta estás a chorar! -fez-se silêncio, eu e o Alex fixávamos a Marta.

-O quê? Eu estou a chorar de tanto rir oh parvos, não vêm que até tenho a cara toda vermelha? A sério meninos, nós os três formamos um grupo de mais.

Ficámos mais aliviados e começámos a rir novamente daquele disparate.

Voltei-me para o computador e reparei pelo canto do meu olho que a Marta estava a dar uma vista de olhos ao livro que tinha poisado sobre a mesa de cabeceira ''Um Dia'', falava sobre a história de uma rapariga ''Emma'', que foi o que me chamou à antenção do livro, e de um rapaz ''Dexter'' que se apaixonam, e estão sempre desencontrados e que estão apaixonados um pelo outro, etc, etc

E o Alex estava mesmo ao meu lado, enquanto digitava ''red'' na barra de pesquisa do youtube senti uma mão forte e quente na minha cintura, arrepiei-me um bocadinho, nem eu sei ao certo porquê, limitei-me a ignorar o arrepio, olhei-o nos olhos, de seguida os seus lábios, e novamente os seus olhos, sorri e voltei-me para o ecrã.

 Já estávamos a ouvir a música ''snow'', abri um novo separador e fui ao hotmail ver se a minha mãe já tinha respondido. Já. Cliquei por cima de ''recebeu uma nova mensagem de um dos seus contactos: Clara: Olá!'' Deslizei dedo até ao botão esquerdo e cliquei no mesmo.

''Olá Emma! Connosco está tudo bem... o André conheceu uma rapariga chamada Margarida, e namoram agora, nem conhecias o teu irmão se o visses agora, anda sempre com um sorriso na cara nem parece ele. Ainda bem que conheces-te esse rapaz, faz-te bem não pensares naquele parvo querida! Mas mesmo assim não mudo a minha opinião, sabes que o que fizeste foi completamente irresponsável. Vê é se não te distrais com o teu novo namorado. Ainda bem que fizeste boas amizades. O teu pai finalmente arranjou trabalho? ...acho que... que bom! A sério, ainda bem, é para toda a gente que ele finalmente tenha arranjado um trabalho, bom para ele porque recebe dinheiro e está ocupado, bom para a tua avó que fica com mais dinheiro para ela para medicamentos e isso (acho eu)...Bem, aqui vai tudo bem também. Porta-te bem nesse tal bar! E na escola quero ver bons resultados, quero que tenhas muitos 4! Beijos, mãe.

P.s: não te esqueças de me falar todas as sextas!''

 O que é que ela querida dizer com ''não te distraias como o teu novo namorado?'' em termos de relação ou não me distraio na escola? 

Acabei de ler o email e olhei para a Marta, que estava mais concentrada no livro do que sei lá eu o quê.

-Hey Marta! Tens algum blog?

-Tenho, queres? -disse ela sorrindo.

-Claro. Eu também criei um à pouco. Escreve tu.

Passei-lhe o computador e ela digitou o blog, assim que abriu vi que era em tons de azul, rosa e verde. Estava muito giro.

Ela passou-me de novo o computador e eu dei uma vista de olhos pelo blog, de facto Marta escrevia muito bem.

 Ouvi um barulho e calculei que fosse a minha avó a chegar. Descemos todos e sim, era a minha avó, estava a poisar os sacos em cima da mesa.

-Ahm... olá avó! Este é o Alex, e a sua irmã Marta, eles passaram por aqui para falarem comigo e eu convidei-os a entrar, há problema?-disse eu ajudando-a a arrumar as compras.

A minha avó e o Alex e a Marta olhavam-se seriamente, e estavam vidrados uns nos outros, sem pronunciarem qualquer frase, não percebia o que se estava a passar, mas coisa boa não era.

-Alexandre! Oh meu deus! Não pode ser! Não pode ser este Alexandre!

Marta estava calada a observar aquela situação toda, mas de certeza que ela sabia o que se estava a passar porque também ela estava surpreendida, e de queixo caído.

publicado por Kate às 14:30
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sinopse
Na adolescência há acontecimento que podem ficar marcados para sempre. Conseguimos possuir de um milhão de sentimentos em simultâneo, tão bem como pensamentos. With no turning back retrata a história de uma adolescente: Emma, que após ser trocada pelo namorado, e de uma noite marcante na sua vida, em conjunto de um repleto disparate, Emma é obrigada a ir viver com o seu pai e avó para o Alentejo, onde vai fazer amizades que jamais irá esquecer, e principalmente onde vai conhecer o rapaz dos seus sonhos... mas logo por azar, Emma descobre algo terrível, o que pode ser tomado como um risco ou não. Mas quando o amor é muito, e principalmente ''à primeira vista'' não há nada que faça parar o coração de uma adolescente.